WTF?
“Viram como ele é educado?” – falou a mãe de Joana, lá da cozinha. Lucas veio caminhando até José, ele aparentava ter uns 4 anos, ainda usava fraldas, uma chupeta amarrada em um trapo amarrado no braço -que mais tarde José descobriu ser o paninho da sorte dele, e a chupeta da força- descalço, uma bermuda q terminava abaixo do joelho e uma camisa com os dizeres “Born to kill and bring caos to the world” (na verdade era uma camisa do Pokémon, mas a imaginação de José estava voando baixo). Ele se posicionou de frente para José e berrou “ZUIIIIINNN POOOOWW!! Você tá môto“, mas quem disse que José entendeu a brincadeira? Lucas já estava começando a demonstrar expressões faciais (que indicavam a ira infantil crescendo), quando Joana sussurrou para José que ele tinha que se fingir de morto. Sem pensar nem meia vez, José fechou os olhos e largou os braços, Lucas havia abatido mais um inimigo e se virou para voltar ao quarto de Joana.
José abriu apenas um olho e perguntou para Joana se ele já podia voltar ao normal, mas falou um pouco alto demais e Lucas ouviu, rapidamente se virou para José e berrou (ainda mais alto) “MÔTO!!!“, no susto José rapidamente fechou os olhos e ainda escorregou um pouco no sofá (um pouco de realismo para agradar a criança, né?). Joana, meio sem jeito disse: “Só quando ele resolver te ressuscitar“, e assim José percebeu que de namorado de Joana, passara a ser escravo de Lucas e estava sujeito a todas as ordens daquele pequeno imperador.
O pai de Joana (AHA! Acharam que ele havia sido abduzido por alienígenas, não?) assistia a tudo quieto, obviamente sofrendo por ter que conviver com aquela criatura. Ele estendeu a mão para José e disse “Pode se levantar, eu te garanto.”, prontamente José segurou na mão dele e se levantou, afinal discordar da figura patriarcal seria carimbar seu passaporte para fora daquela casa. Lucas ouviu novamente o barulho e se virou, já com os pulmões cheios de ar para berrar ainda mais forte do que a primeira vez, mas quando viu quem estava “ressuscitando” sua vítima parou e engoliu o grito, abaixou a cabeça e continuou seu caminho até o quarto de Joana.
Curiosamente, o pai de Joana era o único que ainda tinha alguma -para não dizer toda- autoridade sobre o pequeno capeta, e José sabia que este era seu único trunfo para sobreviver naquele dia.
“Venham, venham. O almoço está servido!” – disse a mãe de Joana, convocando a todos para o teste, digo, almoço. Aqui vou mudar um pouco o esquema da narrativa, enquanto eu digo como é o ritual de se almoçar pela primeira vez na casa da namorada, vocês podem imaginar as pessoas se sentando à mesa, e o almoço sendo servido, certo?
Na verdade o primeiro almoço na casa de uma namorada é um dos piores testes que pode existir, afinal você deve esquecer tudo o que você normalmente faz quando almoça na sua própria casa, e se lembrar de tudo que a sua mãe gostaria que você fizesse. Mesmo que ninguém esteja olhando para você, você sempre vai se sentir como se estivesse sendo avaliado, e o nervosismo vai aumentando cada vez mais, e a pior coisa que pode acontecer é quando os pratos são servidos e… [A mãe de Joana coloca na mesa os pratos... Brócolis à milanesa, salada de tomate, rúcula e uma receita familiar... torta de quiabo]… Você não come nada daquilo.
A primeira reação -se você estivesse em sua casa- é cara de nojo. Esta deve ser evitada AO MÁXIMO, afinal desagradar a cozinheira -especialmente se ela for a sua sogra- é garantia de piadinhas -alfinetadas- pelo resto de sua vida, do tipo: “Não, fulano não gosta das minhas comidas, não sou uma boa sogra para ele.” Se você não gosta da comida, o problema é seu! Vai ter que comer de qualquer jeito, e nada de comer bem pouco só para agradar, você tem que mostrar que gostou, tem que saborear, e se ela oferecer mais -é, assim como o universo, as sogras são cruéis a tal ponto- você tem que aceitar e falar “Só mais um pouquinho pois está muito delicioso!”, engolir o choro é uma técnica que você DEVE dominar para essas situações.
Reze pela sobremesa -pelo menos um Pai-Nosso e uma Ave-Maria, se possuir um Terço é aconselhável rezar o Credo, milagres são extremamente bem-vindos nessas horas-, afinal como dizem “Depois da tortura, vem o alívio” mas isso não é garantido, e do jeito que o universo é irônico -aqui, nessa história, ele é particularmente perverso-, sua sobremesa será alguma torta contendo uma substância a qual você é alérgico, ou que possui algum trauma de infância -Se lembra quando seus primos da fazenda te mergulharam num tonel cheio de maçãs podres?-.
O curioso disso tudo é que enquanto você sofre… algumas pessoas se saem muito bem, mas voltemos à história para que isso seja melhor entendido.
Enquanto José preparava suas papilas gustativas para ignorar o sabor daquele festival do greenpeace, ele olhou para o lado e viu Lucas sentado em sua mesinha particular, recebendo um suculento bife à parmegiana, com batatas fritas -bifes nunca pareceram ser tão deliciosos aos olhos de José como naquele instante-. “OH DEUS!! POR QUE ME ABANDONASTES?!“ – berrava a mente de José, enquanto olhava seu prato cheio de mato, e por alguns minutos ele desejou ser um cavalo ou um boi, para poder comer aquilo sem ter que sofrer tanto. Pensou em seu amor por Joana, e decidiu que faria aquele sacrifício por ela, olhou para o prato, sorriu para a mãe dela, respirou fundo, olhou uma última vez para o prato de Lucas -e sua alma chorou, desejando ser crianças novamente para saborear aquele bife com fritas-, respirou fundo mais uma vez, enfiou o garfo no brócolis como se estivesse caçando alimento na época das cavernas e levou a comida até a boca, mastigou de olhos fechados e com a respiração presa -para ele era uma técnica para aliviar o sofrimento, mas para quem estivesse olhando parecia que ele estava saboreando a refeição-, engoliu! Pronto, menos uma garfada para o fim. Abriu os olhos e viu que o seu prato ainda estava cheio (afinal, o que é uma garfadinha, né?) e teve vontade de chorar.
“Homem não chora!” ainda mais se estiver tentando impressionar alguém. As lições de sofrimento impostas por seu pai e pelas crianças cruéis da rua, quando ele era pequeno, fizeram José ter o estômago forte o suficiente para superar aquele desafio.
O almoço acabou, José havia comido mais brócolis naquele dia do quem toda a sua vida, e ainda fora obrigado a provar uma torta de ricota -que segundo a mãe de Joana, era D-E-L-I-C-I-O-S-A-. Para sua sorte, não tinha sobremesa, a mãe de Joana se desculpou e disse que a torta surpresa -surpresa desagradável, com certeza, mas ainda assim uma surpresa- havia queimado no forno. Era chegada a hora de voltar à sala para o início do interrogatório.
- Quem são seus pais?
- Você trabalha?
- Estuda?
- Quantos anos tem?
- Onde mora?
- Já repetiu alguma vez na escola?
- Usa algum tipo de droga?
- Bebe?
- Fuma?
- Com quantos anos pretende se casar?
- Primeiro bem a ser adquirido… Casa ou carro?
- Tem irmãos?
- Algum filho?
- Para que time torce?
…
As perguntas sempre vêm uma atrás da outra, mal dando tempo para José respirar e pensar em alguma coisa. Ele olha para Joana, suplicando para que ela o salve, mas sua súplica não será atendida. Esse é mais um ritual do qual é impossível se fugir quando se conhece os pais de sua namorada. Pelo menos Lucas está distraído amarrando bombinhas na cauda do gato da vizinha…
O Autor confessa que não gosta de legumes, nem verduras e nem de crianças mandonas… com ele, essas três coisas se resolvem na base da violência
Complicado definir o tema de algo. Os pseudo-intelectuais dizem que "Definir é limitar", mas talvez definir seja se encontrar, ou algum outro sentido que vocês queiram. Nunca consegui definir exatamente o que falo aqui, mas na maioria das vezes faço isso com humor. Às vezes falo sério demais, e às vezes nem falo, enfim, tudo que eu achar interessante, coloco aqui. Tem gente que gosta, tem gente que nem sabe que escrevo aqui. Agora, pare de ler isso aqui e presta atenção nos posts no lado esquerdo do site!
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