Depois de jantar e de deixá-la em casa -mesmo com a autorização de Seu Jonas, ainda não era a hora certa para abusar da boa vontade da família e muito menos da sorte-, era hora de ir para casa e sonhar, dormir tranqüilo e pensar no que fazer no dia seguinte. Seria simples assim se a vida fosse simples -coisa com que nem a mais simplista das pessoas consegue concordar-, vamos então saber o que realmente aconteceu.

Quando chegaram na casa de Joana, havia um silêncio assustador -vale ressaltar aqui que o silêncio não é apenas a ausência de sons, e sim um definidor(?!) de climas, existem os silêncios amedrontadores, excitantes, constrangedores e vários outros-, as luzes da casa apagadas indicavam que havia algo de errado, afinal o Fantástico nem havia começado.

Por algum motivo -desses motivos que chamam de acaso, ou sexto sentido-, José pensou em Lucas, mas logo abandonou a idéia, afinal Lucas estava preso… … … Não estava? José tremeu com o simples pensamento de encontrar Lucas nervoso querendo se vingar por ter ficado preso -sim, crianças são vingativas- e se preparou para o pior -proteger órgãos vitais é a ordem que o cérebro dá nessas horas-, ativando assim o tão conhecido instinto de sobrevivência.

Caminharam devagar pelo jardim, Joana abriu a porta da frente e encontrou a sala completamente escura, tentou acender a luz mas não conseguiu, caminhando pela sala percebeu que cacos de vidro estavam espalhados pelo chão. “Eu tenho uma lanterna no carro” disse José, já correndo em direção ao carro e voltando o mais rápido que conseguiu. Ao iluminar a sala com a lanterna, se deparou com um vandalismo sem comparação, as paredes todas rabiscadas, marcas de mãozinhas e tentativas de se escrever “Lucas” por todas os cantos da sala e do corredor. Joana chamou por seus pais e no andar de cima, Lucas percebeu que suas próximas vítimas haviam chegado. Seguindo os barulhos que ouviram, Joana e José chegaram até a dispensa da casa, e encontraram Seu Jonas e Dona Ruth trancados.

Isso é coisa daquele moleque!! Ahh quando eu pegá-lo…” dizia Seu Jonas, aliviado por sair daquele quartinho. Quando olhou para as paredes de sua casa e viu toda aquela bagunça, teve vontade de chorar, mas o choro cedeu lugar à raiva e pensou nas 74 maneiras de esganar uma criança mimada -a imaginação das pessoas flui quando se trata de técnicas de tortura, há teorias que explicam isso através de vidas passadas, vividas na Idade Média, é claro-. Procuraram por toda a casa, com a maior cautela possível, José entrou no quarto de Joana e viu todos os bichinhos de pelúcia rasgados, e Lucas chorando sentado na cama, repetindo bem baixinho: “Eu só queria brincá com o gatinho.” José se aproximou bem devagar e sentou-se ao lado dele, enquanto pensava no que dizer José só ouvia os berros de raiva de Seu Jonas -que estava descobrindo o tamanho do estrago que o capeti… Ops, digo, pequeno Lucas havia causado na casa-. Vendo Lucas chorar, José percebeu que a culpa de toda aquela situação não era da criança -e muito menos do gato-, e sim dos pais que não deram limites e não souberam ensinar o que se pode e não se pode fazer, ainda mais estando em uma casa que não era sua. Pode parecer papo de psicólogo, e alguns radicais vão dizer que Lucas merece ir para um internato, mas não é bem assim -mesmo porque o internato iria devolver Lucas em menos de 3 dias-, José então pensou em um plano e rezou para que Lucas entendesse. “Você vai fingir que está dormindo, Lucas. Até os seus pais chegarem, dessa forma ninguém vai brigar com você, eu prometo.” Lucas pode não ter entendido muito bem o objetivo final de José, mas se ele não iria levar bronca, estava tudo certo então.

José desceu até a sala e chamou todo mundo, dizendo que havia encontrado Lucas, mas que ele estava dormindo. Óbvio que estava mentindo, mas a raiva de Seu Jonas não o deixou perceber isso, tratou logo de começar a subir as escadas, mas foi impedido por Dona Ruth -que percebeu que José estava ficando desesperado e achou que era melhor impedir seu marido de esganar Lucas primeiro, para depois tentar entender a situação por completo-, que justificou-se dizendo que era melhor deixar Lucas dormindo do que ter que aturar mais destruição e vandalismo em sua casa -é, eu sei, estranho uma criança de 4 anos conseguir fazer tudo isso, mas ela fez-. Pouco tempo depois, os pais de Lucas chegaram e ficaram assustados com a bagunça -já bem menor do que no início, mas ainda não havia passado tempo suficiente para se arrumar tudo- e perguntaram se Lucas havia feito aquilo tudo -eles conhecem a peste que têm-, mas Dona Ruth disse -antes mesmo que Seu Jonas completasse sua primeira sílaba que fora Lucas sim, mas que estavam todos brincando então não havia problema algum, e que Lucas estava dormindo no quarto de Joana. Lucas fingiu estar dormindo por mais tempo do que aguentava e acabou dormindo de verdade, sendo carregado no colo por seu pai, sua expressão era de um anjo -acordado ele era um Anjo Caído, mas dormindo transmitia uma serenidade sem igual-, e enquanto passava pela porta, abriu um pouco os olhos e sorriu para José, um sorriso que na verdade era um agradecimento silencioso por José ter salvo sua pele.

Joana percebeu, mas só mais tarde entendeu, quando José explicou o que havia acontecido. É, José subira no conceito de seu amor…

O Autor gosta de fazer bagunça de vez em quando, e confessa fingir que está dormindo para não levar bronca também