Aprendeu a lutar pela vida desde que nasceu. Inicialmente eram bactérias, germes, coisas assim… Seu sistema imunológico era digno de um guerreiro, filho dos Deuses.

Seu pai se orgulhava perante os outros Deuses, exibindo seu filho e dizendo que ele seria o maior guerreiro de todos, e que nascera para liderar os Deuses de volta à Era Gloriosa. Todos ficavam felizes ao ouvir a Profecia (que já estava esquecida há tempos), sonhavam com tempos passados quando os humanos os reverenciavam.

- Bons tempos aqueles, hein?
- Ô se eram… Vida fácil, bastava jogar um raio em alguma àrvore, e todos os humanos clamavam nossos nomes.
- É. Vida boa. Agora qualquer japonês consegue fazer um raio. Ninguém nos respeita mais… *suspiro*
- Mas a Profe…
- Deus… digo… Nós queremos que a Profecia se realize, mas não está em nossas mãos. Tudo vai se decidir de acordo com a vontade do Universo.
- Maldita hora em que criamos o Universo, ele acha que manda em tudo agora.
- Pois é, não devíamos ter ouvido aquele primo que mora no subsolo, ele veio com um papo sobre “delegar funções”… Humpft! Agora o Universo se tornou independente.
- Independência é uma bosta, não? Só é boa quando nós decidimos até onde ela pode ir.
- Ô se é… Ô se é…

Diálogos assim eram normais, e depois que aquele garoto nasceu, todos ficaram esperançosos para voltar ao poder de outrora (eu acho ‘outrora’ uma palavra tão legal…), mas não contavam com a interferência do Universo (o Universo tem vontade própria, e descobriu que pode controlar até a vida dos Deuses, e sorriria sempre que se lembrasse disso, se tivesse uma boca, é claro). O Escolhido, era assim que todos se referiam ao filho daquele Deus, pouco importava o seu nome (ou o nome de seu pai), todos os Deuses só queriam que ele cumprisse a Profecia.

Ele cresceu, sendo treinado antes mesmo de aprender a falar. Sua força e vigor eram notáveis, e com 3 anos já conseguia derrotar um leão usando apenas suas pequenas mãos (ainda não se sabe o porquê, mas os Deuses mantém um estoque de feras em seus territórios, leões, dragões, ovelhas, lhamas etc). Aos 7 já destruía montanhas com petelecos, aos 11 derrotava qualquer Deus na queda de braços, e assim o tempo foi passando, sua força, rapidez, perspicácia e sabedoria aumentando cada vez mais, em um ritmo nunca antes visto pelos Deuses.

Seu passatempo preferido era observar os mortais, e não se conformava com algumas coisas, não conseguia entender, por exemplo, o porquê de alguns humanos erguerem templos em homenagem a alguns Deuses, quando esses Deuses não se importavam com o templo e muito menos com os mortais. Sabia que os Deuses tinham perdido prestígio e por isso não se importavam mais com os humanos, mas ficava admirado com a dedicação de alguns mortais, construindo templos e orando, em homenagem ao seu Deus escolhido.

E como sempre acontece nessas histórias onde Deuses ficam observando mortais… Ele se apaixonou por uma mortal e os outros Deuses não gostaram nada disso, pois o envolvimento entre Deuses e mortais, nunca havia dado certo (Nem com 12 tentativas conseguiram “neutralizar” Hércules). Mas, diferente do que acontecia em outras histórias, dessa vez nenhum Deus ousou interferir, já que ele era o mais forte e sábio de todos.

- Ahh, já era gente… Agora ele vai pra Terra, vai ter relações com a tal mortal e a gente vai continuar aqui, a Profecia não vai se cumprir e em alguns milênios as pessoas nem vão se lembrar mais que nós existimos
- Acho melhor procurarmos outro emprego. Ei! Que tal se formos para outras galáxias, criar outros planetas?
- Ótima idéia! Chega de perdermos tempo com esses malditos humanos. De quem foi a idéia de criamos esses bichinhos, hein?

E em meio às discussões sobre a origem de tudo (nem os Deuses lembravam como as coisas tinham começado), todos os Deuses se foram, já idealizando como seria o Novo Mundo e definindo a lei básica que jamais poderia ser quebrada: Nada de humanos!

Ele não quis ir junto, ficava os dias e as noites, deitado em sua nuvem, olhando para a mortal que lhe conquistara sem dizer uma palavra sequer. Ficou sozinho, sendo o único Deus daquele Universo (imagine uma Monarquia, pois é, bem parecido já que ele era Deus, mas quem mandava era o Universo), tomou coragem e desceu à Terra e resolveu se apresentar.

- Olá, não consegui me controlar, te observo todos os dias lá de cima, sou Deus, e estou disposto a abrir mão da minha divindade por você, ou melhor… estaria, mas infelizmente, devido à causas contratuais, eu não posso simplesmente deixar de ser Deus. Mas isso é outro assunto, o fato é que estou apaixonado por você, e quero ficar aqui com você.
- Deus?! Náo há nada de divino em você. SOCORRO!! Polícia!! Tem um louco aqui!!
- Eu sou Deus sim, pô!
- Então faz um milagre.
- Milagre?! Não posso, pô… Não quero que todo mundo fique sabendo que eu sou Deus…
- Pode ser um pequenininho…
- Não! Tá louca!? Não posso. Eu sou Deus e ponto final, não preciso fazer milagres para provar isso!
- Você quer que eu acredite mesmo que você é Deus? Eu nem te conheço, se você é mesmo Deus, me diz então o que eu pedi quando rezei ontem.
- Eu não ouço as preces. Quem faz isso é o nosso Mainframe, ele filtra os pedidos e depois eu vejo o que posso fazer.
- Nosso? Você não é o único Deus?
- Atualmente sou, mas eu tenho uma equipe, né? Não posso cuidar de tudo sozinho. Tenho mais o que fazer do que ficar ouvindo todas as preces que vocês fazem, aliás, vocês pedem demais! Poderiam correr um pouco atrás das coisas ao invés de ficar me pedindo tudo…
- Eu não peço muito!
- Me referia à raça humana em geral…
- Não generalize!
- Tá bom, tá bom! Estamos nos desviando do assunto. Quer reinar ao meu lado lá do céu?
- Tenho medo de altura… e lá deve ventar muito, vai bagunçar meu cabelo
- Tá de sacanagem, né?!
- Você fala palavrões demais para um Deus…
- Porra! Só falei ‘sacanagem’!
- Dois palavrões agora, um Deus não deveria falar palavrões.
- Tá bom, tá bom, me desculpe.
- Essa é nova…
- Hã?!
- Deus me pedindo desculpas… Se eu contar, ninguém acredita.
- Então já acredita que sou Deus?
- Não disse isso…
- Maldito livre arbítrio!
- O que você disse?!
- Err… Perguntei se você quer tomar um sorvete comigo…
- Não posso.
- Por que?
- Você é um estranho pra mim. Não aceito sorvetes de estranhos.
- Não confia em Deus?
- Não blasfeme!
- Blasfemar? Mas eu sou Deus, sua maluca!
- Maluco é você que acha que é Deus, seu bobão!
- Você que é uma bobona!
- Mudando de assunto… Até que você é bonitinho. Acho que aceito dar um passeio com você.
- Mas eu nã… Errr… Digo, seria um prazer.

*Uuuóóóóóón* Uma viatura da polícia parou perto deles.

- Ouvimos um pedido de socorro.
- Err… Fui eu mesma, seu Policial.
- E o que está acontecendo? Esse meliante está perturbando a senhora?
- Meliante?! Tá doidão?! Mais respeito ao se dirigir a mim! Eu sou Deus!!
- Deus?! Xiii… Ô Silva, vamos levar esse pro manicômio.
- Espere!! Espere!! Me soltem! Antes que eu resolva soltar a minha Ira Divina em vocês!!!
- Ira Divina!? Se tu mijar na viatura, a gente vai te enfiar a porrada! Tá me escutando!?

*Plaft*

- Ô PORRA!! Tá maluco?! Dando tapa em Deus!?
- Fica quieto e entra na viatura!! Tá em cana, barbudinho!
- Ei!! Você vai deixar eles me levarem?
- Sinto muito, não tenho dinheiro pra fiança…
- Diz pra eles que eu não estou te perturbando!
- Mas você estava…
- Já era, barbudinho! Vai ficar na cela junto com o Zelão.
- Ô PORRA!! Faz alguma coisa! Me tira dessa!
- Tudo bem, tudo bem… Pode deixar ele aqui, seu guarda. Ele não estava me perturbando.
- Tem certeza, dona?
- Tenho sim, ele é meu paciente, não é perigoso.
- Tudo bem então, mas fica esperto barbinha! *Plaft* Só pra você aprender a respeitar a Corporação!
- MALDI…
- Shhhh… Fica calmo. Pode ir, seu guarda.
- Qualquer coisa é só chamar, estamos à serviço da população

*Uuuuuóóóóóóóón* E a viatura foi embora.

- Um Deus não deveria sentir raiva.
- Não deveria, mas estou sentindo. E eles vão pagar por tal afronta.
- Esquece o PM, vamos sair ou não, seu bobão?
- Hã!? Claro, vamos sim, mas espera rapidinho que eu vou fazer a viatura deles capotar.
- Anda logo! Tô ficando com fome. Quero um sorvete.
- Mas você disse que não aceitava sorvetes de estranhos…
- Você não é mais estranho, e tá me devendo um sorvete!
- Xiii, eu tô sem dinheiro. Esqueci desse detalhe quando desci para te ver.
- Ai meu Deus!
- Que tem eu?
- Nada! Já vamos começar as coisas do modo errado. Era você quem devia pagar tudo.
- Mas eu cheguei à Terra hoje, não tenho dinheiro!
- Tá, tá bom! Deixa pra lá. Eu pago. Mas anda logo, vamos porque eu tenho que chegar em casa a tempo de ver a novela das sete!

E assim começou a história do Deus que se apaixonou por uma mortal. Não era a primeira vez que surgia um romance assim, mas era a primeira vez que acontecia dessa forma. Deus já chegou à Terra fazendo dívidas.

O Autor dedica esse texto a uma pessoa, mas não vai falar quem! HA! Morram de curiosidade, meros mortais!