Já comentei aqui sobre os meus conhecimentos futebolísticos, certo? Sobre todo a minha admiração pelo esporte bretão (sempre quis usar essa expressão) e sobre o quanto eu não sei absolutamente NADA sobre o meu time, ou qualquer outro grupo de 11 jogadores que corre atrás de uma bola.

Eu conheço as regras, mas meu conhecimento termina por aí. E conheço as regras, graças às pesquisas que era obrigado a fazer na escola, para não ir às aulas de Educação Física.

Isso me trouxe vários problemas na vida, como por exemplo não ter assunto com o pai de alguma namorada, que era fanático por futebol, ou por ficar de fora em algumas conversas no 2º grau, e até mesmo na faculdade (vale lembrar que me formei em Ciência da Computação, ou seja, estava sempre rodeado de nerds que gostam de tudo que os caras de outros cursos “normais” gostam, futebol, mulheres, festas… Só que, como todo nerd que se preza, nenhum deles praticavam nenhuma dessas “atividades“, suas experiências se resumem a comentar acontecimentos sobre esses assuntos, acontecimentos vividos por outras pessoas, mas mesmo assim…).

Bom, isso tudo é para dizer que eu não sabia que ontem, no Maracanã, aconteceria o jogo do Vasco x Flamengo.

E acreditem, se existe algo que você precisa saber na vida, é o calendário do Brasileirão, do Campeonato Carioca, e de qualquer outro campeonato que reúna no mínimo 22 jogadores em campo. Esse conhecimento se torna EXTREMAMENTE essencial, se você precisa passar perto do estádio, para chegar em casa.

Não importa se você utiliza carro, moto ou ônibus… A situação é crítica para todo mundo. Mas vou descrever aqui, apenas a situação dentro do coletivo, que era onde eu estava.

Pra começar, o número de ônibus é reduzido, ainda mais quando são jogos clássicos, como o de ontem. Isso é feito para reduzir os gastos que a empresa vai ter, com possíveis veículos vandalizados. Finalmente chega um ônibus, e assim que você entra, percebe que algo não está certo, as pessoas têm expressões de dúvida e terror, estampadas em suas faces e você tenta manter a calma, se tiver sorte, e pegar o ônibus ANTES do estádio, você ainda tem grandes chances de conseguir um lugar para sentar, caso contrário, esqueça.

As pessoas ficam curiosas, querendo descobrir o motivo de tanta lentidão no trânsito e logo alguém diz: “Tem Urubu e Bacalhau no Maraca hoje!“, algumas pessoas se desesperam e começam a chorar, outros passageiros corajosos tentam acalmá-las dizendo que tudo vai dar certo, e que todos chegarão vivos e, quase, inteiros em casa.

Eis que o inferno se aproxima… Você, que estava tranqüilamente conversando com uma menina linda(com a qual você tinha esperanças de convidar para sair mais tarde), que por azar estava sentada no banco ao lado do seu, percebe que entre vocês surgiu uma barriga. Não uma simples barriga, uma barriga que havia saído do Maracanã, uma barriga acompanhada de 2 braços que insistiam em ficar levantados, mesmo sabendo que o resquício de desodorante, usado durante a manhã, já havia sumido há tempos, deixando apenas aquele rastro de cebola estragada. Seguindo a primeira barriga, começam a aparecer outras barrigas, crianças, mendigos, ambulantes e a galera começa a berrar “Ô MOTORISTA! SÓ VAI PARAR NO MÉIER, HEIN?! SÓ PÁRA NO LEÃO!!! QUEM FOR DESCER ANTES, DESCE AGORA E VAI ANDANDO!!! ‘BORA COM ESSA PORRA Ô MOTORISTA!!

O desespero toma conta dos passageiros de primeira viagem, a estudante do seu lado começa a chorar dizendo: “Eu tenho que descer no Riachuelo…“, liga para o pai desesperada e começa a perguntar como vai fazer. Você também não está completamente tranqüilo naquela situação, mas aproveita para apavorar mais ainda os outros falando: “Desce pela janela, ué” e segura o riso. Você tenta olhar para a menina com quem estava conversando antes, e só consegue vê-la de relance, quando o ônibus freia e as pessoas seguem a inércia, deixando um pequeno vão entre elas (por um período de 2 segundos, talvez, tempo para que todos recuperem o eqüilíbrio).

No engarrafamento, Vascaínos celebrando a vitória e Flamenguistas quebrando coisas (não que eles não quebrem quando ganham, mas quando perdem eles quebram com mais vontade), as pessoas começam a berrar no ônibus “NINGUÉM ZOA NINGUÉM NA RUA, OUVIRAM!? SENÃO VAMOS SER APEDREJADOS!!! FICA NA DISCIPLINA AE, VALEU?!“, o desespero aumenta exponencialmente, todos olhando para a rua, para ver se alguma horda de Flamenguistas se aproxima. Por sorte, dessa vez, o ônibus não sofreu danos consideráveis, só algumas pessoas que passaram socando a lataria.

Passado o momento crítico, aos poucos o ônibus começa a esvaziar a ponto de ser considerado apenas um ônibus lotado. Você já consegue visualizar a menina no outro banco por um período maior de tempo, mas trocar palavras ainda não é possível. O ponto em que ela vai descer se aproxima, você consegue até se despedir, mas não da forma que queria, e fica torcendo para uma próxima oportunidade.

Maldito jogo! Você enfrenta aquele maldito engarrafamento, com aquele maldito cheiro de suor, chega em casa, toma um banho demorado para tentar remover aquela ‘nhaca e vai pro MSN conversar com a menina, tentar acertar uma próxima oportunidade…

Bom, essa foi a lição de hoje. DECOREM o calendário de jogos de todos os campeonatos da sua cidade. E nunca, NUNCA utilizem o transporte público que passe perto do estádio onde está acontecendo o jogo.