No dia seguinte, ele acordou pensando se aquilo não teria sido apenas um sonho, mas ao abrir o jornal e confirmar que o Brasil venceu a Argentina, percebeu que não foi um sonho, pelo menos não igual aos sonhos que ele costuma ter quando dorme. Pra falar a verdade, era bem parecido com os que ele tinha enquanto dormia, mas… Vocês entenderam o que eu quis dizer.

Mas ele lembrou que era segunda-feira. Dia de trabalhar, aturar dois chefes chatos, em dois empregos diferentes, durante 6 horas em cada um. Era a única forma que encontrara de pagar suas contas e não depender mais de seus pais.

Já tentaram trabalhar com um “problema” na mente? Pois é, não dá. Não, nem me venham com aquele papo de separar a vida pessoal do ambiente de trabalho, simplesmente não dá. Ainda mais quando este “problema” que não sai da sua cabeça, é um beijo que ele recebeu de uma morena de parar o trânsito. Mas não era apenas uma morena que despertava desejos luxuriosos em quem a olhasse, era a SUA morena, aquela que ele desejava há tempos e que lhe surpreendeu ao demonstrar que sabia das suas intenções.

Conclusão… Um dia estressante, levando esporro de ambos os chefes, sem conseguir se concentrar direito nas tarefas. Tudo piorava quando ele pensava que a semana mal tinha começado.

Cansado, irritado, estressado, desesperado para chegar em casa ele desce do prédio onde trabalha e vai andando, cabisbaixo, em direção ao ponto de ônibus, já que seu carro estava quebrado, quando esbarrou em alguém e sem ao menos olhar pra cima, pediu desculpas.

- Não, não te desculpo não.

Aquela voz era conhecida, e vencendo o cansaço, ele conseguiu levantar a cabeça e perceber que era ela quem estava ali, a sua morena. Gaguejou seu nome e tentou se concentrar para falar, ao menos, uma frase completa.

- É…É…Oi, Ca… Cam… Camila! O que… O que você está fazendo por aqui?
- Ué, achei que quisesse me ver…
- Si… Sim, mas, mas… Achei que… Fôssemos combinar algum dia.
- Hoje não é um bom dia? Então eu vou embora.
- NÃO! Não, eu não quis dizer isso… Me desculpe, é que estou meio… … Cansado, é isso… Estou cansado.
- Ué, então eu vou embora… A gente se vê outro dia.
- Não, eu quis dizer que estou cansado e por isso me confundi ao dizer aquela outra coisa.
- Vamos ficar aqui falando ou…?
- Err… Me desculpe. A gente pode ir para aquele bar ali no final da rua, lá é calmo, podemos sentar e conversar um pouco.
- Atitude! Assim que é bom.
- Vamos?

E foram. Conversaram por horas, ele finalmente teve coragem de se declarar um pouco para ela, contou sobre as vezes que tentou falar alguma coisa e de como se assustou ao ouviá-la dizendo palavrões na comemoração do gol no Maracanã.

- Ahhh, mas foi só pra extravazar.
- Eu sei, mas é que na minha cabeça, você nem sabia tais palavrões.
- Achava que eu era o que? Uma bonequinha?
- É, acho que sim. Mas agora já consigo te ver como uma pessoa real.
- E gosta do que vê?
- Bastante.
- Bastante o suficiente?
- Suficiente para o que?
- Nada não.
- Não, agora fala…
- Nada, não é nada. Deixa pra lá. Mas então, sobre o que falávamos?

O tempo foi passando, e os dois nem perceberam, só repararam que já era tarde, quando o dono do bar implorou que eles fossem embora, pois tinha que dormir. E então, eles foram conversando pelas ruas, até o carro dela e ele decidiu que não iria trabalhar no dia seguinte.

- Você tem certeza disso? Não ir ao trabalho? Mas você é sempre tão certinho…
- Certeza eu não tenho, mas prefiro ficar aqui com você.

Impressionante, longe de seus amigos, ali à sós com ela, toda a vergonha e medo que ele tinha de se expressar começava a desaparecer.

Conversaram por horas, já que ela não trabalhava mesmo, nem se importou com a hora, viram o sol nascer num píer desses, limpinhos que existem em filmes românticos, daqueles onde ninguém aparece para perturbar, onde a lagoa não é poluída e a câmera enquadra os dois e mais o sol nascendo por trás das montanhas. Sim, montanhas, porque em filmes não aparecem favelas nessas horas.

Ela, deitada no colo dele, se mostrava uma mulher muito mais frágil do que normalmente aparentava, nem parecia ser possível que uma mulher daquela soubesse palavrões e/ou vibrasse com jogos de futebol. Estava tudo perfeito, mas… Eu sei, eu sei, sou um estraga prazeres, mas tenho que colocar um pouco de ação na história.

Distraídos olhando para aquele belo cenário, eles são surpreendidos por um homem que não precisa ter nome e nem descrição, é apenas um coadjuvante que aparece para assaltar o nosso casal, e nessa tentativa de assalto, Felipe é baleado (eu já tinha mencionado que o nome do nosso herói era Felipe?) e o ladrão foge. Assustada, Camila grita por socorro, e alguns velhinhos que passeavam pela ciclovia da lagoa param para ajudá-la.

A caminho do hospital, Felipe segurava bem forte na mão de Camila e juntava todas as suas forças para permanecer consciente. Chegando lá, foi encaminhado direto para cirurgia e os médicos só pediram a Camila que ela rezasse. Rezasse muito.